segunda-feira, 11 de julho de 2016

LINDA, IGUAL A BARBIEZINHA

   No jardim de infância, os alunos sempre se divertiam com brinquedos aleatórios. Eu, por exemplo, amava uma boneca bem barbiezinha. Colocava vestidos, sapatos, pintava a cara delas com tinta guache, essas coisas de criança. Num dia, a professora, afrontosa, tirou a boneca de mim e, no lugar, deu-me deu um carrinho heteronormativo, afirmando: "Esse brinquedo não é adequado a sua 'opção' sexual (VIDE Manual de Comunicação da ABGLT, ex-professora), pois você não é menina, Luca.". Abaixei a cabeça e banquei a "Cry Baby".
  Após o episódio, felizmente, nunca mais me impediram de brincar de boneca. Mas elas sumiram da prateleira, e notei que as garotas brincavam com meus xodós noutra parte da creche. Eu, "sempre Inês, sempre Brasil", indignei-me e dispus-me a brincar, também, com as coleguinhas. Os monitores olhavam estarrecidos para "mon amour", mas não soltavam um monossílabo. Nenhum ousava me contrariar porque eu ameaçava contar à mamãe o método não recomendado para castigar os menores, e eles temiam deveras um ataque dela (minha mãe é muito "Dangerous Woman", SIM).
  Pensar nesse ocorrido me faz refletir sobre o quanto a infância é distorcida e tangenciada para os padrões normativos e sexistas impostos pela sociedade. Os primeiros anos definem tudo, e uma educação opressora e aversiva à diversidade não "protege" alguém de se tornar aquilo que não escolheu ser. Pelo contrário, gera traumas, repulsa, depressão, isolamento, dentre várias fobias e distúrbios emocionais que uma infância perdida possa causar.
  Eu, por exemplo, não freei meu prazer de brincar de bonecas, mas e quanto às inúmeras crianças que se frustram por se considerarem aberrações? Por serem agredidas verbal e/ou fisicamente por serem - isso mesmo - CRIANÇAS? Por serem seres humanos puros em sua essência? Por não vislumbrarem sexualidade numa cor, brinquedo, personagem animado ou simplesmente numa roupa?
  Os fatos citados acima são reais. Não é lenda, teoria ou abstração de minha mente desconstruída e empoderada. Discutir gênero/sexualidade não é "modismo" ou "mimimi". É um debate tanto relevante e pertinente quanto discutir os aspectos políticos do golpe na democracia brasileira. Envolve desconstruir resistências dentro das escolas, aceitar a liberdade de expressão e respeitar a individualidade de cada cidadão. Está mais do que na hora de se fazer uma troca justa entre conceitos arcaicos e uma nova perspectiva para a geração que nos sucederá. Não se trata apenas de defender minorias historicamente excluídas, e sim de levar adiante uma nova formulação do conceito de educação. Uma educação que não exclua, que não censure, mas sim que traga esperanças a inúmeros LGBT+ e outras minorias excluídas ao longo do processo educacional.

P.S.: não deixe a ignorância matar uma infância!